O meu primeiro ataque de ansiedade

O meu primeiro ataque de ansiedade aconteceu quando andava a brincar sozinha no jardim de casa. Talvez que tenha sido essa solidão a despertá-lo, não o sei dizer. Mas comecei a pensar na morte. Na minha morte, mais concretamente. E o que me assustava não era o meu desaparecimento em si, mas a consciência que nessa visão eu tinha dele. Lembro-me de me imaginar a vaguear pela casa, consciente que já não pertencia ali. Corri à procura da minha mãe e agarrei-me a ela a soluçar, num frenesim, repetindo compulsivamente – Não quero morrer! Não quero morrer! (na verdade, devia ter gritado Não quero saber se morri!, mas na altura não me ocorreu a distinção). Só me acalmei quando ela e o meu irmão me asseguraram que quando eu tivesse idade para morrer, já teriam inventado a cura para a morte.

O meu primeiro ataque de ansiedade remonta às noites da infância em que, sozinha na cama, no escuro, não conseguia dormir, e todos os pesadelos do mundo me atormentavam. Ficarei eternamente grata à literatura infantil que me protegia e me embalava, até o medo não ser mais que um barulho longe, lá fora, na noite.

O meu primeiro ataque de ansiedade ocorreu numa aula de formação musical, a primeira daquele ano. Eu não devia estar ali, mas a certeza que tenho agora não me acompanhava nessa altura. Eu não percebia nada do que se estava a passar, e senti-me a desaparecer. De cada vez que tentava respirar, o professor tocava mais uma melodia, e incitava-nos a ouvir, a sentir a música… Tarefa desleal para quem já só sentia frustração e medo.  Pânico. Sirenes e pontos vermelhos… O professor notou e perguntou-me se estava tudo bem. Comecei a chorar compulsivamente, a tremer, as lágrimas a turvarem-me a vista até todos à minha volta não passarem de pequenos nadas, borrões confusos na sala ordenada.

O meu primeiro ataque de ansiedade apareceu numa noite, enquanto estudava para o teste de História. A matéria acumulada fitava-me e desafiava-me a continuar a ler. Mas cada vez que tentava, ria-se de mim e crescia, tornava-se demasiada e impossível de ser aprendida. E o tempo passava. E o quarto começou a girar com ela, num rodopio frenético e sufocante.

O meu primeiro ataque de ansiedade surgiu quando fui para a faculdade. Cada parede branca daquele quarto lembrava-me do vazio que sentia e de como estava sozinha. Mesmo que acompanhada. Chorei todos os dias, todo o dia. Nas aulas procurava controlar-me mas, de vez em quando, olhando distraidamente para um canto vazio qualquer, lembrava-me. Lembrava-me de tudo o que tinha deixado antes e de como não sabia o que haveria depois. E tremi. Passei dias a forçar-me a respirar, porque parecia que já não o sabia fazer normalmente, organicamente, como se o meu corpo negasse a passagem ao oxigénio que só queria cumprir o seu dever.

O meu primeiro ataque de ansiedade atacou quando disseste que me amavas. De repente, o ar do quarto escaldou, as mão suavam, o peito ardia. Tentei andar pelo quarto mas a cada passo que dava o chão revoltava-se, remexia-se e fazia-me vacilar. E continuei a vacilar, cada vez que me abraçavas, cada vez que me beijavas, cada vez que, para meu horroroso anseio, vinhas até à minha janela, de noite, em segredo. E foi a vacilar que desisti de nós.

O meu primeiro ataque de ansiedade foi quando te pedi que fosses sincero. E tu foste, sem vacilar. De repente, o ar do quarto gelou e doía respirar. As lágrimas quentes temperavam a minha cara fria, mas desta vez não havia frenesim. Desta vez, a ansiedade veio como uma dormência, uma inércia, a ineficácia de um sentimento, um sussurro de fim.

O meu primeiro ataque de ansiedade acontece todos os dias, e é como uma cicatriz, que tanto é imperceptivelmente suave e não incomoda, como é grotesca e feia e difícil de lidar. É o filtro hiperbolizante com que vejo o mundo, a minha exaustão.

Não, Álvaro, eu não tenho em mim “todos os sonhos do mundo”…

Já só sonho com uma vida de eufemismos.


– ana

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