Na óptica do observador

O dia começou normal. Como nos demais dias, acordei desesperada por ter que me levantar cedo e fiz o costumado inventário de desculpas que poderia evocar para faltar ao trabalho. Frustrei-me, como de costume, por não ter nenhuma desculpa convincente (ou mesmo capacidade para faltar à minha responsabilidade – maldição fatal!) e, portanto, levantei-me. Para não faltar à regra, bati com a cabeça no tecto do quarto (nas águas furtadas de um último andar, até metro e meio é demais), praguejei, abri o estore da janela, cegando-me instantaneamente com a claridade nívea do sol invernoso, praguejei novamente. Depois deste espectáculo de soberba dignidade, sentei-me na cama, ainda a amaldiçoar a minha sorte, enquanto me ambiento à brutalidade descontrolada que invadiu o meu ninho outrora escuro e aconchegante. Como é da rotina, concluo que posso confiar na minha acuidade visual, ignorando as dioptrias que desfocam o tapete debaixo dos meus pés e esquecendo o caminho acidentado até à casa de banho. Fazendo um esforço hercúleo para descer as escadas sem cair, lá consigo atingir o desidrato, concluindo, com percalços, os procedimentos normais da rotina matinal.

Saio finalmente de casa e constato que, ao chamar o elevador, chamei aquele que, apesar de todas as reparações de que tem sido alvo, continua avariado. E, de facto, o dito não me desilude: apesar de o ter chamado para o 5º piso, onde alegremente o espero, ele pára no 4º e volta a descer, por sua mais amável vontade. Chateada como senão estivesse à espera já desta traição, repudio toda a gama de elevadores e, ao invés de chamar o outro, de temperamento mais dócil e obediente, decido ir pelas escadas, esforçando-me, em vão, para não fazer barulho e/ou tropeçar nos meus próprios pés. O ar fresco da manhã saúda-me e, talvez pela primeira vez, fico de facto feliz: o dia nasceu frio e com sol, uma combinação deliciosa. Como é tradição, vou a pé, trilhando o caminho de sempre, que só não faço já de olhos fechados porque não quero dar motivo aos deuses para me darem uma lição de humildade, obrigando-me a beijar o chão que piso.

Aconteceu nesta manhã, contudo, o acaso de uma ligeira diferença perceptiva, segundo o olhar ainda ensonado desta que vos escreve. O exercício da escrita que tinha iniciado, o acolhimento deste desejo de não só escrever mas também de partilhar, desbloqueou uma quantidade aterradora de sensações. Para mim, nessa manhã até ali caricatamente comum, tudo parecia ter um interesse exacerbado: o carro que não parou na passadeira, a mulher que parecia estar a falar sozinha, as folhas que cedem das árvores, as pessoas que vão trabalhar… De repente, o mesmo caminho tornou-se um caminho totalmente diferente. Como quem aumenta a graduação quando a miopia acorda e as lentes costumeiras já não satisfazem os olhos sequiosos por alta definição, também eu, naquela manhã, como em todas a partir daí, parece-me, me conheci sequiosa pela visão perfeita e irrepreensível de uma realidade que anseio por descrever. O caminho tornou-se mais interessante.

“e protesto que de quanto vir e ouvir, de quanto eu pensar e sentir se há-de fazer crónica”…

Assim espero, Garrett, assim espero.


 – ana

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