Herrare é umano [haja o que hajar]

É um lugar comum dizer-se que num grupo de amigos cada membro ocupa um papel específico e, sob pena de alterar toda a dinâmica, perene: o mais extrovertido, que conhece muita gente e serve, não raras vezes, de ponte de comunicação entre grupos; o irresponsável, indivíduo curioso que se esquece de tudo, desde datas importantes – de cariz social mas, principalmente, académico -, a chaves, carteiras, telemóveis, enfim!, uma miríade de pertences cultivados por cada canto da cidade; o envergonhado, criatura dócil que mantém um perfil reservado e não se mete com ninguém, confortável na sua tarefa de observar à distância a turba desordeira; a ‘mãe’, aquele ser mítico que não consegue relaxar nunca e está constantemente preocupado com os restantes, nomeadamente se levam casaco – todas as mães sabem que à noite faz frio! -, se tomam os medicamentos a horas, quais são os prazos académicos que estão a expirar, … No fundo, a ‘mãe’ é um compêndio de informações e lembretes, aquele amigo em formato analógico que substitui qualquer afamada agenda digital.

Eu sempre fui a ‘mãe’ do grupo e a responsabilidade que esse cargo exige e que se agarra a nós como pastilha elástica ao cabelo, não deixa grande espaço para apreciar a liberdade de cometer erros.

A expressão errar é humano é, provavelmente, dos maiores paradoxos com o qual as mentes acacianas deste mundo nos tentam encher a barriga, um fenómeno em tudo equivalente aos Verões que se passam em casa dos avós, semanas incríveis passadas a encher a barriga de amor fraterno e, deixemo-nos de romantismos que o assunto é sério, de comida insuperável. A sensação de enfartamento que se sente é equiparável ao empanturramento que sinto quando alguém, subindo ao pedestal da sapiência mundana, me atira que errar é humano [poder-me-ia debruçar aqui sobre esse outro flagelo do perdoar é divino, mas há limites para a quantidade de indignação que consigo filtrar]. A expressão em si é verdadeira (se bem que poderia elencar aqui uma série de erros perpetrados pelo meu felino de companhia, fosse o caso de isso me apetecer), mas a sua concretização é tão contraditória que ofusca. Se, senhores doutos, errar é humano, porquê criar um preconceito em torno do fracasso?, porquê fazerem-nos, a nós, humanos, sentir menos do que somos quando o erro nos bate na cara como um poste de iluminação esbarra no néscio que cogitava livremente, sem olhar?

Eu sempre achei, e não o fazia por arrogância, que sabia de umas quantas coisas da vida. A parte engraçada, e que me devia ter alertado para esta falácia, é que não sei especificar exactamente em que parte da vida eu me achava especialista, mas achava-me superior às pequenas quezílias do mundo. Eu sei, já soa a arrogância, mas não era essa a intenção. A minha “superioridade” não era forma de ataque senão uma estratégia defensiva. Como minutos a jogar PS4 como o meu irmão me acabariam por provar, a minha capacidade defensiva deixa muito a desejar. E assim, como o avatar que, para seu martírio virtual, me tinha no comando do seu destino, também eu me tramei, e os erros que me deveriam humanizar tornaram-se, apenas, aos olhos dos outros (ou apenas aos meus olhos, o que me parece uma distinção conveniente), uma desilusão com óculos.

Os erros na vida pessoal são, como diria um professor que tive, preocupações que a sós resolvo, mas os erros públicos, os que mais a minha parca reputação comprometem, esses são mais dolorosos, não porque a dor em si, sozinha, doa mais, mas porque o não atingir as expectativas dos outros a torna perigosamente maior.

Há um risco enorme em ser-se bom profissional, que é nunca querer deixar de o ser. E não me penitencio da arrogância que nunca tive [mas, fica a dica, talvez seja preciso conhecer-me primeiro para perceber isso], mas sim da ganância de querer sempre mais. Porque o muito é sempre pouco quando está tanta coisa em jogo, mesmo quando não está assim tanta coisa em jogo. Mas o medo de errar está tão enraizado que levei quatro meses a publicar este texto.

A pressão de que se tem que ser mais, se tem que ser melhor é muito… chata. Sim, é essa a sensação. No início, quando surge, quando nos sentamos para escrever cientes que temos que escrever, e escrever bem, a pressão é dor, é sufoco. Afinal, é o nosso confronto com a possibilidade de não conseguir ultrapassar o constrangimento que nos tolda o cérebro, esse sujeito execrável que ao invés de funcionar como eu preciso, está antes concentrado no bocejo que todo este tédio me provoca. Mas passada essa frustração inicial, a incapacidade de assumir que nem sempre se é excelente é só chata. E o seu grau de chatice varia entre uma comichão num ponto específico das costas ao qual não se consegue chegar, e o barulhinho agudozinho e irritantezinho de um mosquito maldito, de volta da nossa cabeça, numa noite quente de Verão. Enfim, chateia.

Mas a coisa lá se ultrapassa, eventualmente. E, segundo o anjo torto que orquestrou tudo isto, lá se vai acertando no erro, involuntariamente, às vezes por teimosia, e se vai escrevendo algo que, se não interessar, que pelo menos não mace.

Hei-de errar tanto que à força me tornarei humana. E então a vida vai reparar em mim. E, com nojo, vai atirar um – Que burra!. Vou pegar nessa ambiguidade de termos, guardá-la nas meias e seguir, assobiando.


– ana

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