Sobre ti

Hoje vim falar de ti. E sei que provavelmente não lês este blogue, o que me dá uma coragem imensa para escrever sobre ti. É uma coisa curiosa, a coragem. Ausenta-se de nós durante tanto tempo que nos habituamos a viver sem ela. É como uma cidade que frequentámos às vezes mas não o suficiente para lhe decorar os cantos, e na nossa memória soa sempre a paisagem de cartão postal. Ou talvez a coragem seja como a praça onde dava milho aos pombos e pela qual fazia questão de correr, ignorando os rogos da minha avó, que não entendia que romper os collants e esfolar os joelhos era como que uma tradição milenar importantíssima, era a selfie da altura, a prova da ousadia que mais tarde mostraria orgulhosa como sinal de uma tarde bem passada. Tudo isto consiste numa memória remota, coragem-pombo que já não alimento.

Mas vinha falar de ti. E lamento aqueles que acharem que vai sair daqui uma lamechice qualquer. Claramente não me conhecem  e tomam-me por alguma romântica louca. O que, pensando bem, não está assim tão errado. O Romantismo não se fez de borboletas e amores-perfeitos, mas de amor louco, ilógico e infeliz, que o mundo desordeiro e pérfido predestina ao fracasso. Interessante é pensar que mundo seria esse, o empírico de todos ou aquele que apenas existia na cabeça do herói? Estaria o mundo estragado ou seria o herói estragado que via o mundo à sua semelhança?… Desculpa o discurso desconexo, eu sei que isto não é uma aula de literatura, afinal, eu vinha falar de ti. Creio que estás habituado às minhas divagações. Ou talvez já tenhas rasgado da memória esta irritante característica?… Não há problema, se lesses este texto, rapidamente te lembrarias.

Sabes, quando penso em ti, gostava que fôssemos uma folha em branco. Sem o peso bruto do passado. Talvez que te apaixonasses por mim outra vez e, quando olhasses para mim, me visses envolta naquele filtro fotográfico de rede social, que deixa as pessoas incríveis, com uma aparência mística de fada. Isto imagino eu, que nunca vi nenhuma fada. Pelo menos que me lembre, talvez porque elas não brilhem, de facto, assim, ocultando perfeitamente a sua identidade sobrenatural. Mas eu vinha aqui falar de ti, e desse brilho etéreo que emprestava aos teus olhos um jeito de olhar que os meus não compreendiam. Era bom, não era?, escrever esta história do princípio…

Vinha aqui falar de ti e de como preferia que me tivesses partido o coração. Era bom poder culpar-te e dizer que te odiava e poder rasgar as nossas fotografias e queimar todos os presentes que me deste e amaldiçoar o dia em que te conheci e repudiar-te por me deixares neste estado de ansiedade que me faz escrever descompassadamente e dificulta a leitura e me faz abusar no polissíndeto, e ahhhhhh!, que raiva de te amar! É por isto que os sentimentos têm má fama, sabes, porque nos descontrolam e fazem-nos, inclusivamente, desafiar as leis da gramática.

Nos dias de chuva, não sinto falta do sol: sinto falta de poder dizer-te o quão me apetece fechar o chapéu e gritar e andar à chuva e saltar nas poças e apanhar uma esperada pneumonia por ter deixado a roupa secar no corpo; nos dias de frio, não espero pelo calor: tenho saudades de ver o meu entusiasmo reflectido no teu olhar compreensivo, uma partilha tácita de loucura que faz doer os ossos, numa reacção invernosa de prazer…

Vinha aqui falar de ti e entretanto perdi-me. Sempre tiveste esse poder e é enfurecedor constatar que ainda o tens, mesmo à distância, mesmo quando és apenas uma memória.

Mandar-me-ias prender se fosse de bicicleta até à tua porta?, ou te mandasse uma coruja com um bilhete na pata, para que soubesses que estava a pensar em ti? Se ouvisses o teu nome no vento, saberias que era eu a causa da ventania?… Estou a começar a soar tresloucada, não estou?! Ainda bem que a minha histeria é literária e nunca saberás de nada disto.

Vou amar-te à distância e deixar que o silêncio sepulcral que se instalar sobre nós extinga as crenças vãs que a ilusão cria, como um apagar brusco de uma chama teimosa que luta por esquivar-se ao seu insanável fim.

Talvez seja loucura, mas acho que cada vez há mais vento.


 – ana

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