Enquanto espero(,) o rio

A minha família tem um grande defeito: ser pontual. Costumava ser uma qualidade muito apreciada mas, com o passar dos tempos e à luz da sociedade contemporânea, moderna e cheia de razões, ser pontual começou a ser uma característica vergonhosa e abstrusa. E se não é um defeito, é certamente um ponto negativo na personalidade do sujeito. Até porque ser pontual é algo que espanta (aquele espanto/estranhamento que faz as pessoas se afastarem de nós com medo de entabular conversa com alguém que suspeitam ter pouca acuidade mental), e que já não é assim tão querido pelas massas.

Criada nestas condições duvidosas, também eu acabei por incorrer neste pérfido erro da pontualidade. É curioso que este tipo de herança nunca venha plasmado nos testamentos, e que as pessoas façam tábua rasa das peculiaridades psicológicas do defunto, dando clara prevalência a outro tipo de peculiaridades, desde que materiais, como uma colecção valiosíssima de pacotes de açúcar. Sou pela inovação, Para o meu querido primogénito, Luís Amadeu, deixo a minha colecção de frasquinhos de vento, e a minha arrogância e sentido de superioridade; para a minha princesa mais nova, Constança Isabel, fica toda a minha colecção de palitos, e a minha mais odiada teimosia. Fica a escritura mais composta e até servia de mote para conversas vindouras e possíveis lições de vida e conduta, enquanto se ficava a conhecer mais os ancestrais: Oh papá, por que é que aquele senhor lhe cuspiu para cima?Porque, Amadeu Lourenço, o pai é um orgulhoso filho da mãe, tal e qual como o seu avô e, queira Deus, o menino também será. Sabe, meu filho, há que sempre honrar o património da família. Bom, fica a dica.

Portanto, conforme advogo, sou também eu muito aguerrida ao património da minha família e carrego, assim, esta maldição comigo, pelo que chegar a horas (às vezes, e é com pejo que o confesso, acontece chegar aos compromissos até antes da hora!) começou a ser um merecido castigo por este meu comportamento desviante. Mas já que se deve aproveitar algo positivo das nossas desgraças – pelo menos tento fazê-lo sempre que me encontro num dia mais filosófico -, estou neste momento sentada à beira-rio. E penso que acabo de tomar consciência de que as pessoas já não se sentam à beira-rio. Talvez nunca o tenham feito e seja só eu que ando a ler muita poesia; e talvez que o amor da Lídia e do Ricardo tenha sido impossível não por filosofias dele e resignação dela, mas antes porque o palco desse amor era muito mais improvável que pôr estas duas entidades fictícias a amar.

Mas enquanto eu concretizo a impossibilidade, pessoas aleatórias passam por mim e dedicam-me um olhar de confusão, de perplexidade, como se a qualquer momento voltassem atrás só para dizer Oh menina, o que está a fazer sentada aí, com este frio e sozinha?, perdeu a noção ou perdeu um amor?. Felizmente, ninguém me perguntou nada e para aquele a quem esta minha escolha suscitou dúvidas, calou-as e prosseguiu caminho. Ainda bem: pelo menos para ele, a minha vida é mais interessante e, na sua visão, eu sou muito mais misteriosa, quando na verdade estava só à espera daqueles que, e muito bem, foram abençoados com certo descomprometimento horário.

Mas além daqueles que me olham com curiosidade, outros passam que simplesmente me ignoram. Não é que a minha invisibilidade seja uma novidade para mim, até porque tenho perfeita consciência de que não há nada de muito memorável na minha figura, mas neste caso em específico, ignorarem esta que vos escreve implica ignorarem também o rio e a sua perfeitamente ‘sentável’ beira. Porque ninguém tem tempo para ver, quanto mais para ver o rio. E, afinal, que novidades é que o rio pode ter? Ou o vento?, este então que nem devia merecer lembrança, sempre a soprar que nem parvo e a despentear-me e a colar-me o cabelo ao baton gloss que nunca ponho mas que hoje pus, quase que parece só para lhe atrair a atenção, oh!, vá-se lá entender as mulheres!…

Poderia dizer – e ficaria bem bonito se dissesse – que o rio me lembra a minha saudosa infância, mas que me lembre, à parte de ser este o rio da cidade da minha infância, nunca me sentei, em criança, a olhar o rio. Na verdade, lembro-me de sentar-me no degrau de pedra da casa da minha avó e olhar para a estrada e para os carros que passavam, lá na meia distância. E, é facto, contemplei muita vegetação. Mas o rio… Não, o rio não me lembra nada, e talvez por isso é tão bom de olhar. Aqui, o barulho dos carros não é mais que silêncio, e livre de outros enleios, o meu pensamento também se calou. Não há vontade de voltar atrás, porque não há nostalgia; nem ânsia de correr para a frente, porque não há ambição. Só há o rio. E o vento. E o meu cabelo gloss colado ao baton despenteado. Ou um contrário mais coerente que satisfaça mais.

Quando o meu castigo acabar e o rio não for mais que paisagem, regresso ao mundo real. Por agora, vou continuar sentada e viver somente.

Talvez um dia deixe isto de herança.


– ana

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