Das negativas

Apesar de já estudar há alguns anos fora da minha cidade, é frequente voltar lá, à casa da família, para, principalmente, provar-lhes que me ando a alimentar bem. Na verdade, não é tanto uma visita cordial como é uma espécie de consulta de rotina, como quando o médico nos receita uns comprimidos com nome que soa a ofensa e prescreve uma série de hábitos saudáveis, acabando a ocasião com um simpático Vemo-nos daqui a três meses, sendo que só aparecemos lá dois anos depois, com jeito defensivo e tom de reclamação, como se o médico tivesse culpa da nossa inércia e incapacidade de acatar ordens simples. Ir a casa é muito isto, e se juntarmos ao tempo efectivo da consulta o tempo que temos que esperar por ela, percebemos que dura o mesmo que o fim-de-semana, mais coisa menos coisa.

As estações de comboios deixam-me sempre triste. Não sei [meaning, não sei se quero admitir] o que é, mas há qualquer coisa naquele bulício ferroviário que me atormenta.

Um casal despedia-se na estação. Não me lembro em que dia aconteceu, mas era de tarde, naquela hora melancólica do entardecer que o Inverno traz mais cedo. Para onde ela vai, ele não pode ir; onde ele fica, ela simplesmente não pode ficar. A despedida na estação foi calma e sem histerias, um bafejo que nem parecia tristeza. Soava mais a resignação, quando o hábito, acostumado a despedidas anteriores, torna esta ocasião um insípido acontecimento rotineiro; pela força centrífuga do costume, este era só mais um entardecer na estação.

Eu estava já dentro do comboio, as minhas malas dispostas em fortaleza ao meu redor, um livro no colo, pronto para entrar em acção e suavizar a partida. Contudo, aquela cena raptou bruscamente a minha atenção e por mais que tentasse negociar com o meu cérebro para que ele não abrisse essa caixa de cartão empoeirada, ele, como é, aliás, seu apanágio, ignorou as minhas súplicas e teimou em assistir. Pode parecer algo indiscreto da minha parte focar tão obcecadamente a minha atenção em vida alheia, mas não o fazia por curiosidade. Até porque aquela despedida é um filme recorrente de domingo à tarde em canal generalista. Naquele casal desconhecido, reconheci uma parte de mim, numa espécie de déjà-vu macabro, que me fez odiar o meu sentido de oportunidade e a minha inaptidão para escolher horários mais felizes.

Só quando chegou a hora do comboio partir é que a rapariga entrou, deixando para trás um breve aceno, trazendo consigo o olhar persistente de quem não quer chorar.

Seria de esperar que eu voltasse à minha vida e me concentrasse no livro que pacientemente me olhava, mas não fui capaz.  Nessa viagem, não li. Deixei o livro no colo, para não me sentir tão sozinha, e continuei a pensar na rapariga. Ela estava na minha carruagem, mas de costas para mim. Percebi que olhava pela janela e, esporadicamente, limpava a cara. Era óbvio que estava a chorar, agora que estava sozinha e não tinha que ser forte por ninguém.

Eu também já me despedi assim. Nesse mesmo sítio. Com a mesma expressão. E se tivesse comigo as ilusões que tinha nesse tempo, também diria que não era tristeza. Eu aceitava essa condição como sendo a medida necessária para escapar à mediocridade. Porque eu queria mais, e merecia mais! Porque tinha sonhos!, ou, se soar muito romântico para corações mais pragmáticos, eu tinha objectivos. Também buscava essa concretização pessoal de que tantos falam, os sábios. … Já passou algum tempo desde essa altura, e a busca errante de outrora resultou num bloco maciço de desilusões. Nem tudo foi mau, e quem espreitar do lado de fora da janela provavelmente nem vai perceber. Como quando se parte alguma coisa querida e se junta depois os cacos todos na esperança de negar o dano, por se achar que, se o trabalho de colagem for engenhoso, só de perto se percebe o estrago, assim anda a vida. Aos sonhos e objectivos, dei outra roupagem, e da idealização ficou a realidade. Porque o futuro é ingrato e chega inexoravelmente. E nunca chega a tempo, nunca é o que prometeu. Mas traz ainda consigo, o traiçoeiro, a vontade de não voltar atrás, como quem se agarra a um erro por saber que é mais seguro que procurar o acerto. Às vezes penso que criei o que sempre temi.

Eu queria ter dito isto tudo àquela rapariga. Ou ter-lhe dito outra coisa qualquer, só para a viagem passar mais rápido. Mas não fui capaz. E o comboio seguiu, indiferente, enquanto ambas olhávamos cegamente para a paisagem difusa.

Talvez fosse tristeza. Talvez seja ainda.


– ana

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