Ab imo pectore

Assim que a cabeça tocou na almofada, ela teve a certeza que o dia seguinte seria miserável.

A noite passara-a sobressaltada, num sono leve e insatisfatório, como se nunca descansasse de facto. Quando o frio a acordou, tapou-se com o cobertor que já há várias noites dispensava, só para acordar novamente, regada em suor, atirando abruptamente o excessivo tempero para o seu lugar cativo. Um pensamento atormentava-a, como aquele mosquito barulhento que nos obriga a andar, de madrugada e olhos semicerrados – quer pelo sono interrompido, quer pela luz agressiva do candeeiro – à caça do infiel, que só no escuro nos atraiçoa, e cuja busca acaba numa frustrante desistência e numa série de erupções cutâneas. Mas se apanhar o mosquito se afigura difícil, apanhar este pensamento não era mais fácil. Se já é difícil afastar da mente um pensamento feito, é de imaginar o desespero de querer afugentar um sobressalto sem nome, sem forma, um pensamento no seu estado mais suave, quase brisa, quase nada.

Quando a manhã chegou, finalmente, e com ela o som acre de um despertador insensível, ela não era mais que um borrão de sono, desconforto e confusão. Pensou em não ir trabalhar – como se isso fosse, de facto, uma opção. Contudo, lembrou-se que não ir trabalhar implicaria ficar em casa, ficar nesse sítio que ela tanto amava mas que naquela manhã lhe causava tanto repúdio. E ficaria sozinha, só com os seus pensamentos. Principalmente com aquele específico que ainda não sabia o que era. Não que o seu trabalho fosse movimentado – uma biblioteca não é, entenda-se, o lugar mais movimentado do mundo – mas sempre saía, e havia sempre a possibilidade remota de haver algum resistente. Sim, o melhor era ir trabalhar, ocupar a cabeça com outros pensamentos e, quem sabe, arranjasse tantos que empurrassem os mais antigos pelo precipício da memória e a vida voltasse ao seu funcionamento alheado habitual.

Reuniu forças e levantou-se da cama. Completou a sua rotina matinal com bastante vagar já que, ao contrário do que acontecia todos os dias, não estava atrasada. Tinha, por sinal, bastante tempo, uma vez que se tinha levantado de imediato, obediente, e não protelado a tarefa árdua de acordar. Contudo, queimou as torradas, vestiu a t-shirt do avesso e esqueceu-se do chapéu-de-chuva, aquele que trazia sempre dentro da mala mas que, naquele dia, por desígnios superiores, não estava no sítio querido. Saiu de casa e seguiu a pé, como sempre. Choveu e fez vento.

No trabalho, não apareceu ninguém. E o pensamento continuou, manteve-se ali, naquela parte da cabeça a que não conseguimos chegar, a fazer cócegas. Almoçou sozinha, sentada num banco, com vista para a cor cinza das paredes, um almoço rápido que servia mais para respeitar horários do que para matar a fome. A tarde seguiu na mesma senda que a manhã, e a hora de ir para casa pesou. Soturna, mais cansada que triste, arrastou-se pelo caminho de sempre rumo a casa. Choveu e fez vento. Que dia terrível.

Assim que fechou a porta atrás de si, o escuro da casa abraçou-a e o silêncio saudou-a de mansinho. Uma lágrima, mais arrojada, fugiu do cativeiro, rolou pela cara e desfez-se na t-shirt às avessas. Suspirou. Rapidamente, porém, aquele ambiente que há tão pouco tempo era refúgio transformou-se, e o abraço escuro apertou demasiado, e o silêncio tornou-se tumulto. Enfim, clichés normais de quem se sente só.

Deitou-se na cama por fazer e fechou os olhos. Adormeceu. E foi então que o mistério se desfez, qual baralho de cartas no temporal singelo de um suspiro. Ele apareceu. Era ele o pensamento teimoso que a incomodava, e era ele que tornava o ar da casa tão saturado. O porquê de surgir no seu pensamento era ainda desconhecido, mas um bom palpite seria o facto de estar sempre com ela. Como uma pessoa se afeiçoa a um amuleto, ela afeiçoou-se a ele, e mesmo que ele não fizesse já parte da sua vida, ela continuaria a carregá-lo consigo. Há dias que ele é uma imagem boa, um momento de felicidade que, se não apreciado devidamente na altura, era apreciado agora com saudade latente; há outros, porém, em que só existe este incómodo, uma espécie de martírio que torna tudo miserável. Uma tristeza mole, como um dia sufocante de Verão. Uma ausência tão dolorosa, um vazio tão profundo, uma inexplicável incapacidade de esquecer. Ou não lembrar. Uma lamechice tão chata!… Talvez um dia ela tenha coragem para quebrar o silêncio que se hospedou entre eles e, como num passe de mágica ou golpe de sorte, ele perceba o que ela percebeu: que foram dois certos na hora errada. Ou então, talvez não lhe fale nunca e ele não ouça nunca aquilo que o medo cala. O sentimento há-de ficar pequenino, qual Titono sem Aurora. Afinal, foi sempre ele o corajoso da relação.

Acordou mais aliviada. Pôs a t-shirt do lado certo e sentou-se a ouvir o vento. Quem sabe o que ele trará.


– ana 

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