O dia em fui atropelada

O meu atropelamento aconteceu do nada. Eu sei, um lugar comum. Confesso não saber se é possível ser-se atropelada do tudo; todavia, parece-me importante sublinhar que, no meu caso, foi mesmo do nada. E aconteceu na pior altura possível. É certo que dificilmente haverá algum dia bom para se ser atropelada, mas sendo eu alguém que gosta de ter tudo planeado, gostaria de ter organizado melhor a coisa. Talvez um aviso que me chegasse num sonho, ou um presságio anunciado nas folhas do chá, qualquer coisa mística que me preparasse para o que iria acontecer. Repare-se que nem peço para retirar o sucedido, pedia apenas uma notificação. Acho que era o mínimo. Foi tudo conspirado à minha revelia, impossibilitando-me de dizer que isto de percalços no caminho é giro e tal, e faz-nos crescer, sem dúvida, mas agora não me dá jeito, se pudéssemos reagendar era bem porreiro. Fica a nota.

O acidente deu-se a 28 de Fevereiro que, recordo, foi dia de Carnaval. Eu acho o Carnaval um bocado estúpido, na verdade, mas como tenho, também, grande apreço por coisas que não fazem sentido, acabo por facilmente me deixar imbuir pelo espírito do certame. Há já alguns anos, contudo, que a minha participação nesta estroinice era tímida e pouco interventiva. Como é bom de se ver, foi precisamente este ano que decidi mudar a tendência. Tudo porque chegamos a uma altura da vida em que toda a gente tem tanto trabalho e tantos compromissos, e diferentes horários, que a única altura disponível para nos juntarmos – também para falar de trabalho – é a um feriado, na casa do mais generoso. E ainda que o assunto fosse sério, entre amigos há sempre espaço para a boa e velha estupidez que, dada a festividade, incluía, obviamente, acessórios bem parvos.

Não sei quantos de vós já estiveram numa situação de quase perda de consciência. É uma sensação estranha, como quando se está dentro de água e a visão fica turva e o som torna-se longinquamente indistinto. Foi isso que senti, mais ou menos. Com os sentidos baralhados. Tão confusa… Mas nessa altura de quase perda, felizmente, o traço controlador que tanto detesto tomou as rédeas da situação e veio em meu socorro, não me deixando dormir. E durante o voo rasante até ao asfalto, não vi a minha vida toda passar-me em fast forward, mas congelei sim um único pensamento: Porra!, tenho uns óculos gigantes e uma peruca de palhaço na mochila!!! E não tenho a depilação feita! E estou de macacão! Oh que c*r*lh*!, a sério?! … O meu cérebro é um sujeito curioso, mas lá se soube manter consciente. Congratulações a ele.

Entre o histerismo da condutora e a chegada ao hospital, só me lembro de ter dores. E de quão excessivamente vestida estava para a ocasião. E de quão rija era a maca da ambulância. E de como é chato estar sempre a repetir que fui atropelada. E de como estava atrasada para a reunião/festa de Carnaval… Afinal até me lembro de bastante.

O acidente em si não teve nada de cómico. Apesar de não ter sido muito grave, deu-me trabalho para os meses seguintes e, quiçá, para os meses que hão-de vir. Mas, quase como se fosse uma piada do destino, só fazia sentido que uma trapalhona como eu, capaz de cair no mais liso dos pavimentos, tivesse a sua queda mais grandiosa no dia mais parvo de todo o ano.

A consagração que faltava.


– ana

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