#exercício 1

(…)

Um dia, porém, o mundo mudou: o temperamento destruidor que o fizera dizimar cidades e subjugar povos não pode suster o desejo de todos aqueles que assistiram, impotentes, aos massacres que fizera. Desconhecedor ainda, porém, do seu destino, o duque do fogo regressou a Baviera, onde Julieta, a bela, o esperava, como esperaria sempre, como esperava Titono por Aurora, quer ela viesse ou não.

O que não sabia Romeu, porque perdido na procura de si próprio, e não sabe o leitor, porque o não disse ainda, é que, numa dessas cidades que tornou em cinza, que importa qual se todas são nada agora, alguém jurou mais vingança que talvez nenhum outro. O fogo que queimou a sua cidade é labareda menor perto do ódio que o queimava internamente. Convencido que até um homem tão desprezível podia amar, reuniu um grupo de homens que o acompanhasse até à cidade do duque e, depois de pagar com fogo o que com fogo nunca poderia ser restituído, atacá-lo-ia onde mais lhe doesse: (talvez) Julieta.

Enganava-se o ultrajado, contudo, no tamanho do afecto: regressado a casa e de volta a Julieta, a forma devota como ela o tratava não o comovia, porque era sentimento raro, mas enaltecia-o; a completa devoção da bela submissa sustinha o seu ego e, sem que o soubesse de facto, tornara-o totalmente dependente dela. Era nesse amor estranho e retorcido que ambos encontravam completude: ela amando-o cegamente; ele, amando-se a si próprio, cegamente dependente do afecto dela. Pela primeira vez, Romeu contemplava o poder da inércia e deleitava-se com uma vida que não desejava mudar.

Longe da sua suspeita mas perto do seu sossego, porém, marchavam homens enraivecidos, com vontade de destruir o mais indestrutível dos homens. Não sabiam eles que Romeu queimaria as cinzas das cinzas antes de permitir que algum mal acontecesse a Julieta. Apenas não a defenderia com a sua própria vida porque essa era demasiado preciosa, mas defendê-la-ia com a vida de todos os outros. E eram muitos os que estavam dispostos a defender os duques. Diga-se que, numa contagem rápida, per capita, o ofendido não teria qualquer hipótese de derrotar Romeu e os seus homens. E não pode dizer-se que seja só isso: à semelhança do seu líder, eram todos grandes estrategas e calculistas, características muito apreciáveis em batalha, principalmente contra um exército que só traz vingança. A vingança enfraquece e torna frágeis soberbos homens. Lutar por diversão, sem dar valor ao valor da vida humana, despersonaliza a batalha e é estratégia eficaz. Todavia, não sabia aquele destas previsões agoirentas, e aproximava-se em fúria.

Avisado pelos seus homens de que se aproximava uma chusma em fúria, Romeu sorriu distante, concentrado no bocejo que essa afronta lhe provocava. É talvez importante informar que, não sendo ainda velhos, Romeu e Julieta da Baviera testemunhavam o escassear apressado da sua juventude. Como o leitor concluirá, a passagem do tempo adocica os traços e torna-nos a todos, até mesmo ao mais inflexível, em vilões mais moderados. Romeu estava cansado. Não no ânimo, porque a petulância conserva como o sal, mas na matéria. O corpo cede ao passar acre dos tempos, porque ele passa mesmo para o vencedor, e as mazelas da destruição causada também se fazem notar no perpetrante, mesmo que só na distância. Por isso não ficou Romeu exultante com esta oportunidade, senão ligeiramente feliz, uma felicidade como brisa, que o afaga. Recostado, deu as suas ordens: matá-los a todos, que não ficasse nenhum para confessar razões, que toda a piedade fosse ignorada, que fosse esta a grande conquista, por ser em território seu, Romeu, o Grande, por fim.

A batalha aproximava-se: de um lado, a vingança desmedida; do outro, um passatempo bem-disposto. Da grande janela dos seus aposentos, Romeu e Julieta assistiam a tudo.

Quando as duas frentes enfim colidiram, o massacre foi total. Quando anunciei que, em análise, os homens de Romeu eram superiores, menti novamente. Ou terei dito a verdade, que de tão exacta, deixou escapar reviravoltas sentimentais. Na verdade, todos foram arrasados; a cidade ficou destruída; não se sabe que dia da semana era, mas cumpriu-se o desígnio litúrgico e tudo o que nasceu cinza, em cinza se reverteu. Afinal, uma boa causa também pode funcionar como estratégia sagaz.

Escaparam apenas Romeu e Julieta, e o ultrajado, preservada a vida pela vingança instigante. Sem guardas a impedir a passagem, entrou pelo palácio e seguiu por instinto – mapa de quem não conhece – até aos aposentos onde os duques da Baviera assistiam, ele, sem assombro, ela, horrorizada.

Romeu dirigiu-se ao invasor, que rapidamente desembainhou a espada. Sorriu o déspota perante a coragem inútil. Enfrentaram-se largos minutos até que, num momento de confiança fatal, o vingador atingiu Romeu numa perna, fazendo-o cair a seus pés, findo. Mas não pediu para se despedir de ninguém, como fizera Turno em situação idêntica, arrogante até na morte. Ergueu a espada aquele Eneias, que vingaria agora pátria e companheiros. Mas ao desferir o golpe, outro golpe o atacou primeiro, caindo por terra a vingança irresoluta que, como ele, não se concretizaria: Julieta estava atrás do agressor, um punhal ensanguentado nas mãos, olhos petrificados, a alma perdida. Mas era contrapartida tolerável pela sobrevivência daquele que amava mais que a si mesma. De facto, “as mulheres como os deuses: nunca se cansam de amor”.

A cidade estava destruída, o exército desfeito, a grandeza chegara ao fim. Romeu da Baviera envelheceu sob a sombra dos seus feitos, e Julieta sob a sombra dele.

Sim, o mundo mudou… mas talvez nem tanto.


– ana

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