Adversativas

Eu sou contra a violência. A sério que sou. Sou muito mais pela conversa civilizada que pela força bruta que não leva a lado nenhum. A não ser, talvez, ao hospital. Que é um sítio desagradável, portanto também não aconselho. Acresce que, no meu caso, o facto de não ter sido dotada de grandes capacidades motoras para me meter num arraial deste tipo ajuda a posicionar-me no assunto. Digamos que sou contra a violência por escolha e obrigação.

No entanto, ninguém faz uma afirmação destas sem ter claramente a intenção de dizer o seu contrário. Os discursos são férteis neste tipo de coisas: O dinheiro não traz felicidade mas dava jeitoNão tenho nada contra a homossexualidade, aliás até tenho amigos gays, mas não precisam de mostrar que o sãoEstou de dieta mas vou obviamente comer uma pizza. Não é que se esteja negar totalmente o que se disse, apenas se acrescenta uma informaçãozinha que não é propriamente compatível com a convicção inicial… Ou então estamos mesmo a negar aquilo que por ortodoxia preferimos mascarar. É possível, porque somos todos parvos a esse ponto.

Portanto, eu sou contra a violência mas (cá está ele) há certas situações na vida que têm que se afirmar como excepções. É que há pessoínhas que parecem gostar de fazer veias cerebrais alheias rebentar tal é o grau de raiva que provocam. Vejamos:

Pessoas que não se desviam quando vêem alguém carregada de malas, claramente atrasada para o comboio, mereciam, na minha humilde opinião, um pontapé no rabo. É que toda a gente tem o direito de andar na via pública, e cada um anda à velocidade que entender e puder, mas (olha o maroto, outra vez) não custa nada facilitar a vida àquele que está visivelmente limitado. É que uma pessoa com uma malinha de mão tem certamente mais margem de manobra para mudar a sua rota que o infeliz que puxa uma mala de rodas, enquanto carrega uma mochila a abarrotar nas costas, e que, para rematar, vai a arfar. É bastante perceptível que este condenado não está a fazer turismo, portanto não seria extremamente supimpa se fôssemos todos mais solidários e facilitássemos a vida ao parceiro? Pode ser?

E se se falava em passeios!, o que dizer então da selvajaria das estradas? Condutores que não param na passadeira e que, quando têm a amabilidade de parar, ainda protestam com os traseuntes, deviam ter, pelo menos, um furo em cada pneu. Incluindo o sobresselente. É que eu compreendo que fazer o ponto de embraiagem é aborrecido, e que os senhores condutores tenham pressa para chegar ao destino, mas adivinhem lá?!: eu também! E, embora não seja uma competição, parece-me que estou pior que vocês, que estou a pé. Acreditem quando digo que atravessar a estrada não é algo que faça por lazer ou propositadamente para vos chatear. Aliás, se eu pudesse, acreditem, nunca mais atravessava a estrada na vida (O dia em fui atropelada)!, o que se trata, lamento, de uma impossibilidade logística. É com carinho que recordo o dia em que passaram cinco carros por mim, cinco!, e nenhum parou. Confesso que lá para o terceiro comecei a duvidar da minha própria existência, mas rapidamente percebi que se tratavam apenas de parvos.  

E que dizer dos malditos que não usam fones nos transportes públicos? Cada um ouve aquilo que gosta e, portanto, se a pessoa gosta de música que nitidamente não é boa, não há muito que eu possa fazer. Porque eu sou tolerante. Aliás, isto é mais do que ser tolerante: é simplesmente perceber que não tenho nada a ver com as escolhas dos outros, mesmo que não goste delas. Mas neste caso, assim como não posso obrigar o desgraçado a ouvir aquilo que eu gosto, também aprecio a cortesia de não ser obrigada a ouvir um desastre auditivo qualquer. Principalmente desde aquela invenção maravilhosa chamada fones! O que me enerva mais nesta situação é tratar-se de um daqueles casos típicos em que está tudo bem, não há nada de errado a reportar, a plenitude está ao alcance de todos, podemos ambos ouvir o que queremos sem incomodar o outro, até ao momento em que vem um imbecil e estraga tudo. Era ou não era uma lambada bem metida? (no pun intended)

Pessoas que param no meio da rua, como que estrategicamente posicionadas para impedir a passagem, porque toda a gente sabe que se conversa melhor na corrente de ar; pessoas que continuam a andar enquanto olham para trás, porque é irrelevante se se choca com o parvo da frente ou não; pessoas que não retribuem o cumprimento em salas de espera porque é muito cansativo lidar com a boa educação dos outros; pessoas que não se desviam nos passeios porque é do conhecimento geral que não há perigo nenhum em obrigar o outro a ir para a estrada quando o semáforo está verde para os carros; pessoas que não deixam morrer a bela arte do piropo e que conseguem conspurcar a mais robusta das parkas: esta atitude é repugnante e não há pretexto que justifique a perversão e o assédio, mas que desculpa arranjar para vulgarizar alguém que até as mãos leva tapadas? Não, a sério, qual é o processo criativo? É crime, meus “senhores”, e se não fossem acéfalos perceberiam que também é muito triste essa vossa necessidade. 

Nota-se muito que estou irritada? Estou um bocadinho, de facto, e agora que desabafei fiquei mais irritada ainda porque tive que me lembrar de tudo isto de rajada. Que cambada de idiotas, hã?! São más atitudes que geram más atitudes que geram más atitudes (…), um ciclo vicioso de resmunguice hereditária.

Falta ânimo para quebrar o ciclo.


– ana

 

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