Nem sempre os lírios florescem

A primeira coisa a esquecer-se é a voz. E a tua foi desaparecendo sem que desse por isso. É quase feio como uma coisa tão terna nos escapa, mas aconteceu, como a noite depois do dia. Quando me apercebi que gostava de me lembrar dela, já ela tinha ido, qual brisa, e achei-a perdida para sempre. E esse ato involuntário de desprendimento surpreendeu. Busquei avidamente a tua voz, como água, e assim que a ouvi, uma onda de recordações, tudo aquilo que inadvertidamente havia esquecido, tudo regressou. Jurei agarrar-me a tão pouco, símbolo de tudo, deixando-me vencer pelo arrependimento corrosivo que desde há muito me matava, esperando que tal contrição fosse suficiente para recuperar o que um dia tinha desperdiçado. Não foi. Absolvo-me, enfim, da tentativa néscia, e desde sempre condenada ao fracasso, que a alucinação culposa não denunciou.

A tua voz é novamente névoa, mas desta vez vou deixá-la assim, nuvem.

Acabou. Acabou a comiseração auto-infligida. Há tanta coisa que me prende e me obstina, que não posso continuar a permitir que tu, coisa feliz de outros dias, sejas a amarra que me impede de marear. Assumindo que sempre fomos o vento um do outro, devo este tanto à nossa história, já que a ti não devo mais nada.

E se o amor acontece simplesmente, esquecer-te é intencional. É um esforço resignado, uma exaustão necessária. Uma chatice tremenda, na verdade. Preferia muito mais estar a pensar em como fazer-te feliz do que em como esquecer-te para sempre, mas já tenho a garganta ferida de tanto gritar em silêncio para esta parede, sólida e imóvel, que é a inflexibilidade de alguém que seguiu em frente. Confesso que neste ponto tenho mais inveja que tristeza.

Desculpa a crueldade, mas quero deixar-te para trás como uma fotografia que nos lembra de tudo o que queremos esquecer. Já chega, sabes, estou tão cansada. E tenho tantos motivos para estar cansada ultimamente que mais vale saber escolher as batalhas que enfrento e poder viver o resto em sossego.

É certo que nunca me vou esquecer de ti, mas espero, pelo menos, não me lembrar de ti. Conseguir ver a chuva e não sentir mágoa, deitar-me e adormecer sem medo de sonhar. Não seres o meu pensamento instintivo, a pessoa em que penso quando algo bom acontece, ou quem quero chamar quando tudo corre mal. E certamente, enfim, não quero que sejas mais assunto dos meus textos. Repugno, doravante, a necessidade profunda que tenho de falar de ti, de te manter em mim. E lamento, desde já, a falácia que este texto possa ser.

Nec semper lilia florent, e é preciso aceitar, limpar as lágrimas e avançar. Perdão por tudo e qualquer coisa e, do fundo do coração, sê feliz. Pode ser?

Não temos já nada para dar.

Dentro de ti

Não há nada que me peça água.

O passado é inútil como um trapo.

E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Adeus.


– ana

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