Nem sempre os lírios florescem

A primeira coisa a esquecer-se é a voz. E a tua foi desaparecendo sem que desse por isso. É quase feio como uma coisa tão terna nos escapa, mas aconteceu, como a noite depois do dia. Quando me apercebi que gostava de me lembrar dela, já ela tinha ido, qual brisa, e achei-a perdida para sempre. E esse ato involuntário de desprendimento surpreendeu. Busquei avidamente a tua voz, como água, e assim que a ouvi, uma onda de recordações, tudo aquilo que inadvertidamente havia esquecido, tudo regressou. Jurei agarrar-me a tão pouco, símbolo de tudo, deixando-me vencer pelo arrependimento corrosivo que desde há muito me matava, esperando que tal contrição fosse suficiente para recuperar o que um dia tinha desperdiçado. Não foi. Absolvo-me, enfim, da tentativa néscia, e desde sempre condenada ao fracasso, que a alucinação culposa não denunciou.

A tua voz é novamente névoa, mas desta vez vou deixá-la assim, nuvem.

Acabou. Acabou a comiseração auto-infligida. Há tanta coisa que me prende e me obstina, que não posso continuar a permitir que tu, coisa feliz de outros dias, sejas a amarra que me impede de marear. Assumindo que sempre fomos o vento um do outro, devo este tanto à nossa história, já que a ti não devo mais nada.

E se o amor acontece simplesmente, esquecer-te é intencional. É um esforço resignado, uma exaustão necessária. Uma chatice tremenda, na verdade. Preferia muito mais estar a pensar em como fazer-te feliz do que em como esquecer-te para sempre, mas já tenho a garganta ferida de tanto gritar em silêncio para esta parede, sólida e imóvel, que é a inflexibilidade de alguém que seguiu em frente. Confesso que neste ponto tenho mais inveja que tristeza.

Desculpa a crueldade, mas quero deixar-te para trás como uma fotografia que nos lembra de tudo o que queremos esquecer. Já chega, sabes, estou tão cansada. E tenho tantos motivos para estar cansada ultimamente que mais vale saber escolher as batalhas que enfrento e poder viver o resto em sossego.

É certo que nunca me vou esquecer de ti, mas espero, pelo menos, não me lembrar de ti. Conseguir ver a chuva e não sentir mágoa, deitar-me e adormecer sem medo de sonhar. Não seres o meu pensamento instintivo, a pessoa em que penso quando algo bom acontece, ou quem quero chamar quando tudo corre mal. E certamente, enfim, não quero que sejas mais assunto dos meus textos. Repugno, doravante, a necessidade profunda que tenho de falar de ti, de te manter em mim. E lamento, desde já, a falácia que este texto possa ser.

Nec semper lilia florent, e é preciso aceitar, limpar as lágrimas e avançar. Perdão por tudo e qualquer coisa e, do fundo do coração, sê feliz. Pode ser?

Não temos já nada para dar.

Dentro de ti

Não há nada que me peça água.

O passado é inútil como um trapo.

E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Adeus.


– ana

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Adversativas

Eu sou contra a violência. A sério que sou. Sou muito mais pela conversa civilizada que pela força bruta que não leva a lado nenhum. A não ser, talvez, ao hospital. Que é um sítio desagradável, portanto também não aconselho. Acresce que, no meu caso, o facto de não ter sido dotada de grandes capacidades motoras para me meter num arraial deste tipo ajuda a posicionar-me no assunto. Digamos que sou contra a violência por escolha e obrigação.

No entanto, ninguém faz uma afirmação destas sem ter claramente a intenção de dizer o seu contrário. Os discursos são férteis neste tipo de coisas: O dinheiro não traz felicidade mas dava jeitoNão tenho nada contra a homossexualidade, aliás até tenho amigos gays, mas não precisam de mostrar que o sãoEstou de dieta mas vou obviamente comer uma pizza. Não é que se esteja negar totalmente o que se disse, apenas se acrescenta uma informaçãozinha que não é propriamente compatível com a convicção inicial… Ou então estamos mesmo a negar aquilo que por ortodoxia preferimos mascarar. É possível, porque somos todos parvos a esse ponto.

Portanto, eu sou contra a violência mas (cá está ele) há certas situações na vida que têm que se afirmar como excepções. É que há pessoínhas que parecem gostar de fazer veias cerebrais alheias rebentar tal é o grau de raiva que provocam. Vejamos:

Pessoas que não se desviam quando vêem alguém carregada de malas, claramente atrasada para o comboio, mereciam, na minha humilde opinião, um pontapé no rabo. É que toda a gente tem o direito de andar na via pública, e cada um anda à velocidade que entender e puder, mas (olha o maroto, outra vez) não custa nada facilitar a vida àquele que está visivelmente limitado. É que uma pessoa com uma malinha de mão tem certamente mais margem de manobra para mudar a sua rota que o infeliz que puxa uma mala de rodas, enquanto carrega uma mochila a abarrotar nas costas, e que, para rematar, vai a arfar. É bastante perceptível que este condenado não está a fazer turismo, portanto não seria extremamente supimpa se fôssemos todos mais solidários e facilitássemos a vida ao parceiro? Pode ser?

E se se falava em passeios!, o que dizer então da selvajaria das estradas? Condutores que não param na passadeira e que, quando têm a amabilidade de parar, ainda protestam com os traseuntes, deviam ter, pelo menos, um furo em cada pneu. Incluindo o sobresselente. É que eu compreendo que fazer o ponto de embraiagem é aborrecido, e que os senhores condutores tenham pressa para chegar ao destino, mas adivinhem lá?!: eu também! E, embora não seja uma competição, parece-me que estou pior que vocês, que estou a pé. Acreditem quando digo que atravessar a estrada não é algo que faça por lazer ou propositadamente para vos chatear. Aliás, se eu pudesse, acreditem, nunca mais atravessava a estrada na vida (O dia em fui atropelada)!, o que se trata, lamento, de uma impossibilidade logística. É com carinho que recordo o dia em que passaram cinco carros por mim, cinco!, e nenhum parou. Confesso que lá para o terceiro comecei a duvidar da minha própria existência, mas rapidamente percebi que se tratavam apenas de parvos.  

E que dizer dos malditos que não usam fones nos transportes públicos? Cada um ouve aquilo que gosta e, portanto, se a pessoa gosta de música que nitidamente não é boa, não há muito que eu possa fazer. Porque eu sou tolerante. Aliás, isto é mais do que ser tolerante: é simplesmente perceber que não tenho nada a ver com as escolhas dos outros, mesmo que não goste delas. Mas neste caso, assim como não posso obrigar o desgraçado a ouvir aquilo que eu gosto, também aprecio a cortesia de não ser obrigada a ouvir um desastre auditivo qualquer. Principalmente desde aquela invenção maravilhosa chamada fones! O que me enerva mais nesta situação é tratar-se de um daqueles casos típicos em que está tudo bem, não há nada de errado a reportar, a plenitude está ao alcance de todos, podemos ambos ouvir o que queremos sem incomodar o outro, até ao momento em que vem um imbecil e estraga tudo. Era ou não era uma lambada bem metida? (no pun intended)

Pessoas que param no meio da rua, como que estrategicamente posicionadas para impedir a passagem, porque toda a gente sabe que se conversa melhor na corrente de ar; pessoas que continuam a andar enquanto olham para trás, porque é irrelevante se se choca com o parvo da frente ou não; pessoas que não retribuem o cumprimento em salas de espera porque é muito cansativo lidar com a boa educação dos outros; pessoas que não se desviam nos passeios porque é do conhecimento geral que não há perigo nenhum em obrigar o outro a ir para a estrada quando o semáforo está verde para os carros; pessoas que não deixam morrer a bela arte do piropo e que conseguem conspurcar a mais robusta das parkas: esta atitude é repugnante e não há pretexto que justifique a perversão e o assédio, mas que desculpa arranjar para vulgarizar alguém que até as mãos leva tapadas? Não, a sério, qual é o processo criativo? É crime, meus “senhores”, e se não fossem acéfalos perceberiam que também é muito triste essa vossa necessidade. 

Nota-se muito que estou irritada? Estou um bocadinho, de facto, e agora que desabafei fiquei mais irritada ainda porque tive que me lembrar de tudo isto de rajada. Que cambada de idiotas, hã?! São más atitudes que geram más atitudes que geram más atitudes (…), um ciclo vicioso de resmunguice hereditária.

Falta ânimo para quebrar o ciclo.


– ana

 

Movimento de Rotação

Pela manhã, eras linda. Pousaste os pés quentes da cama no tapete engelhado e sorriste no escuro. Abriste a janela e a brisa da manhã condensou nos teus lábios um suspiro quente. A roupa que escolheste na noite anterior olhava-te expectante da cadeira do quarto. Vestiste-a e quando te olhaste ao espelho, antes de sair, ambas sorriram, confiantes, um só organismo de poder e certeza. 

Eras linda; mas uma pedra entrou-te para o sapato. Um esgar de dor atravessou a tua afeição, mas sorriste, porque era tonto deixar que uma pedrinha de nada te estragasse o dia. 

Eras linda; mas a correria até ao trabalho amarrotou a roupa eleita, traçando vincos de desleixo na tua cara quase linda. Passaste a mão pelo vestido para disfarçar os sulcos do rosto e seguiste, com um sorriso esforçado.

Talvez fosses linda; mas à hora de almoço alguém te perguntou como ia a dieta. O prato escarneceu, e sentiste a cor da culpa por estares a comer, embora exactamente aquilo que era suposto. Sentiste a vergonha da tua incapacidade e inaptidão. Engoliste em seco as palavras calóricas que nunca chegaste a dizer, e a tua barriga dolosa insinuou-se no vestido disforme.

Não eras linda; mas no caminho para casa um grupo de coiotes achou-te o alvo perfeito para assobios e piropos, matando a sangue frio a réstia de orgulho que ainda trazias escondida no bolso do casaco borbotado. Andaste mais rápido para fugir ao foco, mas a pedra no sapato era enorme e furava-te o mindinho. Abanaste a cabeça como que a sacudir o desgosto que eras.

Nunca foste linda. Todas as manhãs são uma ilusão que vestes para não sentires o rigor do dia. As máscaras que pões é à noite que as desfazes, na solidão áspera que te reconforta. Tudo em ti é sujo e repugnante: o vestido apertado, a cara-mancha de suor, lágrimas e rímel, o cabelo furioso em caracóis desfeitos. O corpo dói-te, massacrado, e pensas em tudo o que nunca conseguiste ser, em tudo o que talvez nunca sejas, apesar de tudo o que és, mas que a esta hora tarda é muito pouco e não serve para nada. Mas é justo, sabes?: quem te manda achar que mereces o infinito?…

Chora agora, pequena suja, as perdas que mais ninguém reconhece. Talvez te convenças, como eles, que o teu mundo não tem urtigas.

Em breve há-de ser (a)manhã.

E tudo recomeça.


– ana

#exercício 1

(…)

Um dia, porém, o mundo mudou: o temperamento destruidor que o fizera dizimar cidades e subjugar povos não pode suster o desejo de todos aqueles que assistiram, impotentes, aos massacres que fizera. Desconhecedor ainda, porém, do seu destino, o duque do fogo regressou a Baviera, onde Julieta, a bela, o esperava, como esperaria sempre, como esperava Titono por Aurora, quer ela viesse ou não.

O que não sabia Romeu, porque perdido na procura de si próprio, e não sabe o leitor, porque o não disse ainda, é que, numa dessas cidades que tornou em cinza, que importa qual se todas são nada agora, alguém jurou mais vingança que talvez nenhum outro. O fogo que queimou a sua cidade é labareda menor perto do ódio que o queimava internamente. Convencido que até um homem tão desprezível podia amar, reuniu um grupo de homens que o acompanhasse até à cidade do duque e, depois de pagar com fogo o que com fogo nunca poderia ser restituído, atacá-lo-ia onde mais lhe doesse: (talvez) Julieta.

Enganava-se o ultrajado, contudo, no tamanho do afecto: regressado a casa e de volta a Julieta, a forma devota como ela o tratava não o comovia, porque era sentimento raro, mas enaltecia-o; a completa devoção da bela submissa sustinha o seu ego e, sem que o soubesse de facto, tornara-o totalmente dependente dela. Era nesse amor estranho e retorcido que ambos encontravam completude: ela amando-o cegamente; ele, amando-se a si próprio, cegamente dependente do afecto dela. Pela primeira vez, Romeu contemplava o poder da inércia e deleitava-se com uma vida que não desejava mudar.

Longe da sua suspeita mas perto do seu sossego, porém, marchavam homens enraivecidos, com vontade de destruir o mais indestrutível dos homens. Não sabiam eles que Romeu queimaria as cinzas das cinzas antes de permitir que algum mal acontecesse a Julieta. Apenas não a defenderia com a sua própria vida porque essa era demasiado preciosa, mas defendê-la-ia com a vida de todos os outros. E eram muitos os que estavam dispostos a defender os duques. Diga-se que, numa contagem rápida, per capita, o ofendido não teria qualquer hipótese de derrotar Romeu e os seus homens. E não pode dizer-se que seja só isso: à semelhança do seu líder, eram todos grandes estrategas e calculistas, características muito apreciáveis em batalha, principalmente contra um exército que só traz vingança. A vingança enfraquece e torna frágeis soberbos homens. Lutar por diversão, sem dar valor ao valor da vida humana, despersonaliza a batalha e é estratégia eficaz. Todavia, não sabia aquele destas previsões agoirentas, e aproximava-se em fúria.

Avisado pelos seus homens de que se aproximava uma chusma em fúria, Romeu sorriu distante, concentrado no bocejo que essa afronta lhe provocava. É talvez importante informar que, não sendo ainda velhos, Romeu e Julieta da Baviera testemunhavam o escassear apressado da sua juventude. Como o leitor concluirá, a passagem do tempo adocica os traços e torna-nos a todos, até mesmo ao mais inflexível, em vilões mais moderados. Romeu estava cansado. Não no ânimo, porque a petulância conserva como o sal, mas na matéria. O corpo cede ao passar acre dos tempos, porque ele passa mesmo para o vencedor, e as mazelas da destruição causada também se fazem notar no perpetrante, mesmo que só na distância. Por isso não ficou Romeu exultante com esta oportunidade, senão ligeiramente feliz, uma felicidade como brisa, que o afaga. Recostado, deu as suas ordens: matá-los a todos, que não ficasse nenhum para confessar razões, que toda a piedade fosse ignorada, que fosse esta a grande conquista, por ser em território seu, Romeu, o Grande, por fim.

A batalha aproximava-se: de um lado, a vingança desmedida; do outro, um passatempo bem-disposto. Da grande janela dos seus aposentos, Romeu e Julieta assistiam a tudo.

Quando as duas frentes enfim colidiram, o massacre foi total. Quando anunciei que, em análise, os homens de Romeu eram superiores, menti novamente. Ou terei dito a verdade, que de tão exacta, deixou escapar reviravoltas sentimentais. Na verdade, todos foram arrasados; a cidade ficou destruída; não se sabe que dia da semana era, mas cumpriu-se o desígnio litúrgico e tudo o que nasceu cinza, em cinza se reverteu. Afinal, uma boa causa também pode funcionar como estratégia sagaz.

Escaparam apenas Romeu e Julieta, e o ultrajado, preservada a vida pela vingança instigante. Sem guardas a impedir a passagem, entrou pelo palácio e seguiu por instinto – mapa de quem não conhece – até aos aposentos onde os duques da Baviera assistiam, ele, sem assombro, ela, horrorizada.

Romeu dirigiu-se ao invasor, que rapidamente desembainhou a espada. Sorriu o déspota perante a coragem inútil. Enfrentaram-se largos minutos até que, num momento de confiança fatal, o vingador atingiu Romeu numa perna, fazendo-o cair a seus pés, findo. Mas não pediu para se despedir de ninguém, como fizera Turno em situação idêntica, arrogante até na morte. Ergueu a espada aquele Eneias, que vingaria agora pátria e companheiros. Mas ao desferir o golpe, outro golpe o atacou primeiro, caindo por terra a vingança irresoluta que, como ele, não se concretizaria: Julieta estava atrás do agressor, um punhal ensanguentado nas mãos, olhos petrificados, a alma perdida. Mas era contrapartida tolerável pela sobrevivência daquele que amava mais que a si mesma. De facto, “as mulheres como os deuses: nunca se cansam de amor”.

A cidade estava destruída, o exército desfeito, a grandeza chegara ao fim. Romeu da Baviera envelheceu sob a sombra dos seus feitos, e Julieta sob a sombra dele.

Sim, o mundo mudou… mas talvez nem tanto.


– ana

O dia em fui atropelada

O meu atropelamento aconteceu do nada. Eu sei, um lugar comum. Confesso não saber se é possível ser-se atropelada do tudo; todavia, parece-me importante sublinhar que, no meu caso, foi mesmo do nada. E aconteceu na pior altura possível. É certo que dificilmente haverá algum dia bom para se ser atropelada, mas sendo eu alguém que gosta de ter tudo planeado, gostaria de ter organizado melhor a coisa. Talvez um aviso que me chegasse num sonho, ou um presságio anunciado nas folhas do chá, qualquer coisa mística que me preparasse para o que iria acontecer. Repare-se que nem peço para retirar o sucedido, pedia apenas uma notificação. Acho que era o mínimo. Foi tudo conspirado à minha revelia, impossibilitando-me de dizer que isto de percalços no caminho é giro e tal, e faz-nos crescer, sem dúvida, mas agora não me dá jeito, se pudéssemos reagendar era bem porreiro. Fica a nota.

O acidente deu-se a 28 de Fevereiro que, recordo, foi dia de Carnaval. Eu acho o Carnaval um bocado estúpido, na verdade, mas como tenho, também, grande apreço por coisas que não fazem sentido, acabo por facilmente me deixar imbuir pelo espírito do certame. Há já alguns anos, contudo, que a minha participação nesta estroinice era tímida e pouco interventiva. Como é bom de se ver, foi precisamente este ano que decidi mudar a tendência. Tudo porque chegamos a uma altura da vida em que toda a gente tem tanto trabalho e tantos compromissos, e diferentes horários, que a única altura disponível para nos juntarmos – também para falar de trabalho – é a um feriado, na casa do mais generoso. E ainda que o assunto fosse sério, entre amigos há sempre espaço para a boa e velha estupidez que, dada a festividade, incluía, obviamente, acessórios bem parvos.

Não sei quantos de vós já estiveram numa situação de quase perda de consciência. É uma sensação estranha, como quando se está dentro de água e a visão fica turva e o som torna-se longinquamente indistinto. Foi isso que senti, mais ou menos. Com os sentidos baralhados. Tão confusa… Mas nessa altura de quase perda, felizmente, o traço controlador que tanto detesto tomou as rédeas da situação e veio em meu socorro, não me deixando dormir. E durante o voo rasante até ao asfalto, não vi a minha vida toda passar-me em fast forward, mas congelei sim um único pensamento: Porra!, tenho uns óculos gigantes e uma peruca de palhaço na mochila!!! E não tenho a depilação feita! E estou de macacão! Oh que c*r*lh*!, a sério?! … O meu cérebro é um sujeito curioso, mas lá se soube manter consciente. Congratulações a ele.

Entre o histerismo da condutora e a chegada ao hospital, só me lembro de ter dores. E de quão excessivamente vestida estava para a ocasião. E de quão rija era a maca da ambulância. E de como é chato estar sempre a repetir que fui atropelada. E de como estava atrasada para a reunião/festa de Carnaval… Afinal até me lembro de bastante.

O acidente em si não teve nada de cómico. Apesar de não ter sido muito grave, deu-me trabalho para os meses seguintes e, quiçá, para os meses que hão-de vir. Mas, quase como se fosse uma piada do destino, só fazia sentido que uma trapalhona como eu, capaz de cair no mais liso dos pavimentos, tivesse a sua queda mais grandiosa no dia mais parvo de todo o ano.

A consagração que faltava.


– ana

Ab imo pectore

Assim que a cabeça tocou na almofada, ela teve a certeza que o dia seguinte seria miserável.

A noite passara-a sobressaltada, num sono leve e insatisfatório, como se nunca descansasse de facto. Quando o frio a acordou, tapou-se com o cobertor que já há várias noites dispensava, só para acordar novamente, regada em suor, atirando abruptamente o excessivo tempero para o seu lugar cativo. Um pensamento atormentava-a, como aquele mosquito barulhento que nos obriga a andar, de madrugada e olhos semicerrados – quer pelo sono interrompido, quer pela luz agressiva do candeeiro – à caça do infiel, que só no escuro nos atraiçoa, e cuja busca acaba numa frustrante desistência e numa série de erupções cutâneas. Mas se apanhar o mosquito se afigura difícil, apanhar este pensamento não era mais fácil. Se já é difícil afastar da mente um pensamento feito, é de imaginar o desespero de querer afugentar um sobressalto sem nome, sem forma, um pensamento no seu estado mais suave, quase brisa, quase nada.

Quando a manhã chegou, finalmente, e com ela o som acre de um despertador insensível, ela não era mais que um borrão de sono, desconforto e confusão. Pensou em não ir trabalhar – como se isso fosse, de facto, uma opção. Contudo, lembrou-se que não ir trabalhar implicaria ficar em casa, ficar nesse sítio que ela tanto amava mas que naquela manhã lhe causava tanto repúdio. E ficaria sozinha, só com os seus pensamentos. Principalmente com aquele específico que ainda não sabia o que era. Não que o seu trabalho fosse movimentado – uma biblioteca não é, entenda-se, o lugar mais movimentado do mundo – mas sempre saía, e havia sempre a possibilidade remota de haver algum resistente. Sim, o melhor era ir trabalhar, ocupar a cabeça com outros pensamentos e, quem sabe, arranjasse tantos que empurrassem os mais antigos pelo precipício da memória e a vida voltasse ao seu funcionamento alheado habitual.

Reuniu forças e levantou-se da cama. Completou a sua rotina matinal com bastante vagar já que, ao contrário do que acontecia todos os dias, não estava atrasada. Tinha, por sinal, bastante tempo, uma vez que se tinha levantado de imediato, obediente, e não protelado a tarefa árdua de acordar. Contudo, queimou as torradas, vestiu a t-shirt do avesso e esqueceu-se do chapéu-de-chuva, aquele que trazia sempre dentro da mala mas que, naquele dia, por desígnios superiores, não estava no sítio querido. Saiu de casa e seguiu a pé, como sempre. Choveu e fez vento.

No trabalho, não apareceu ninguém. E o pensamento continuou, manteve-se ali, naquela parte da cabeça a que não conseguimos chegar, a fazer cócegas. Almoçou sozinha, sentada num banco, com vista para a cor cinza das paredes, um almoço rápido que servia mais para respeitar horários do que para matar a fome. A tarde seguiu na mesma senda que a manhã, e a hora de ir para casa pesou. Soturna, mais cansada que triste, arrastou-se pelo caminho de sempre rumo a casa. Choveu e fez vento. Que dia terrível.

Assim que fechou a porta atrás de si, o escuro da casa abraçou-a e o silêncio saudou-a de mansinho. Uma lágrima, mais arrojada, fugiu do cativeiro, rolou pela cara e desfez-se na t-shirt às avessas. Suspirou. Rapidamente, porém, aquele ambiente que há tão pouco tempo era refúgio transformou-se, e o abraço escuro apertou demasiado, e o silêncio tornou-se tumulto. Enfim, clichés normais de quem se sente só.

Deitou-se na cama por fazer e fechou os olhos. Adormeceu. E foi então que o mistério se desfez, qual baralho de cartas no temporal singelo de um suspiro. Ele apareceu. Era ele o pensamento teimoso que a incomodava, e era ele que tornava o ar da casa tão saturado. O porquê de surgir no seu pensamento era ainda desconhecido, mas um bom palpite seria o facto de estar sempre com ela. Como uma pessoa se afeiçoa a um amuleto, ela afeiçoou-se a ele, e mesmo que ele não fizesse já parte da sua vida, ela continuaria a carregá-lo consigo. Há dias que ele é uma imagem boa, um momento de felicidade que, se não apreciado devidamente na altura, era apreciado agora com saudade latente; há outros, porém, em que só existe este incómodo, uma espécie de martírio que torna tudo miserável. Uma tristeza mole, como um dia sufocante de Verão. Uma ausência tão dolorosa, um vazio tão profundo, uma inexplicável incapacidade de esquecer. Ou não lembrar. Uma lamechice tão chata!… Talvez um dia ela tenha coragem para quebrar o silêncio que se hospedou entre eles e, como num passe de mágica ou golpe de sorte, ele perceba o que ela percebeu: que foram dois certos na hora errada. Ou então, talvez não lhe fale nunca e ele não ouça nunca aquilo que o medo cala. O sentimento há-de ficar pequenino, qual Titono sem Aurora. Afinal, foi sempre ele o corajoso da relação.

Acordou mais aliviada. Pôs a t-shirt do lado certo e sentou-se a ouvir o vento. Quem sabe o que ele trará.


– ana 

Das negativas

Apesar de já estudar há alguns anos fora da minha cidade, é frequente voltar lá, à casa da família, para, principalmente, provar-lhes que me ando a alimentar bem. Na verdade, não é tanto uma visita cordial como é uma espécie de consulta de rotina, como quando o médico nos receita uns comprimidos com nome que soa a ofensa e prescreve uma série de hábitos saudáveis, acabando a ocasião com um simpático Vemo-nos daqui a três meses, sendo que só aparecemos lá dois anos depois, com jeito defensivo e tom de reclamação, como se o médico tivesse culpa da nossa inércia e incapacidade de acatar ordens simples. Ir a casa é muito isto, e se juntarmos ao tempo efectivo da consulta o tempo que temos que esperar por ela, percebemos que dura o mesmo que o fim-de-semana, mais coisa menos coisa.

As estações de comboios deixam-me sempre triste. Não sei [meaning, não sei se quero admitir] o que é, mas há qualquer coisa naquele bulício ferroviário que me atormenta.

Um casal despedia-se na estação. Não me lembro em que dia aconteceu, mas era de tarde, naquela hora melancólica do entardecer que o Inverno traz mais cedo. Para onde ela vai, ele não pode ir; onde ele fica, ela simplesmente não pode ficar. A despedida na estação foi calma e sem histerias, um bafejo que nem parecia tristeza. Soava mais a resignação, quando o hábito, acostumado a despedidas anteriores, torna esta ocasião um insípido acontecimento rotineiro; pela força centrífuga do costume, este era só mais um entardecer na estação.

Eu estava já dentro do comboio, as minhas malas dispostas em fortaleza ao meu redor, um livro no colo, pronto para entrar em acção e suavizar a partida. Contudo, aquela cena raptou bruscamente a minha atenção e por mais que tentasse negociar com o meu cérebro para que ele não abrisse essa caixa de cartão empoeirada, ele, como é, aliás, seu apanágio, ignorou as minhas súplicas e teimou em assistir. Pode parecer algo indiscreto da minha parte focar tão obcecadamente a minha atenção em vida alheia, mas não o fazia por curiosidade. Até porque aquela despedida é um filme recorrente de domingo à tarde em canal generalista. Naquele casal desconhecido, reconheci uma parte de mim, numa espécie de déjà-vu macabro, que me fez odiar o meu sentido de oportunidade e a minha inaptidão para escolher horários mais felizes.

Só quando chegou a hora do comboio partir é que a rapariga entrou, deixando para trás um breve aceno, trazendo consigo o olhar persistente de quem não quer chorar.

Seria de esperar que eu voltasse à minha vida e me concentrasse no livro que pacientemente me olhava, mas não fui capaz.  Nessa viagem, não li. Deixei o livro no colo, para não me sentir tão sozinha, e continuei a pensar na rapariga. Ela estava na minha carruagem, mas de costas para mim. Percebi que olhava pela janela e, esporadicamente, limpava a cara. Era óbvio que estava a chorar, agora que estava sozinha e não tinha que ser forte por ninguém.

Eu também já me despedi assim. Nesse mesmo sítio. Com a mesma expressão. E se tivesse comigo as ilusões que tinha nesse tempo, também diria que não era tristeza. Eu aceitava essa condição como sendo a medida necessária para escapar à mediocridade. Porque eu queria mais, e merecia mais! Porque tinha sonhos!, ou, se soar muito romântico para corações mais pragmáticos, eu tinha objectivos. Também buscava essa concretização pessoal de que tantos falam, os sábios. … Já passou algum tempo desde essa altura, e a busca errante de outrora resultou num bloco maciço de desilusões. Nem tudo foi mau, e quem espreitar do lado de fora da janela provavelmente nem vai perceber. Como quando se parte alguma coisa querida e se junta depois os cacos todos na esperança de negar o dano, por se achar que, se o trabalho de colagem for engenhoso, só de perto se percebe o estrago, assim anda a vida. Aos sonhos e objectivos, dei outra roupagem, e da idealização ficou a realidade. Porque o futuro é ingrato e chega inexoravelmente. E nunca chega a tempo, nunca é o que prometeu. Mas traz ainda consigo, o traiçoeiro, a vontade de não voltar atrás, como quem se agarra a um erro por saber que é mais seguro que procurar o acerto. Às vezes penso que criei o que sempre temi.

Eu queria ter dito isto tudo àquela rapariga. Ou ter-lhe dito outra coisa qualquer, só para a viagem passar mais rápido. Mas não fui capaz. E o comboio seguiu, indiferente, enquanto ambas olhávamos cegamente para a paisagem difusa.

Talvez fosse tristeza. Talvez seja ainda.


– ana